domingo, 28 de agosto de 2011

A vida é magenta

O repórter e o cinegrafista ganham do dono da granja que acabaram de visitar e onde fizeram uma ampla reportagem, quatro bandejas de ovos brancos. O repórter, bonitão e jovem, faz cara marota e diz que quando chegar na redação vai fazer uma gemada com cinco ovos... “Para ficar forte”, sorri, malicioso. Acho engraçado, sorrio também.
Depois de sobreviver a uma nuvem de poeira de ração e encarar uma cascata de esterco saído das esteiras automáticas de recolhimento de fezes, os ouvidos ainda cheios do cacarejar sem-fim das milhares de aves adensadas no moderno aviário, o repórter global está visivelmente cansado, mas satisfeito com o material que produziu.
Em cinco horas de duro trabalho visitando fábricas e granjas avícolas, saía com sua pauta cumprida, transbordando de informações. As promessas eram de muitas matérias, boletins e chamadas na TV para o Concurso de Qualidade de Ovos e para a Festa do Ovo 2011. Sei que o jovem bem tratado não entendeu muito bem como uma cidade tão pequena, da mesma idade de Marília, era tão produtiva e tão pequena ao mesmo tempo.
Os números com que alimentei sua pauta eram impressionantes: 20 milhões de aves no Bolsão de Bastos, quase 15 milhões de ovos a cada santo dia, 166 ovos, segundo por segundo. Pelo menos R$2 bilhões de negócios gerados com o ovo - e tudo o que o negócio avícola envolve na comunidade.
E, no entanto, Bastos sempre parece acanhado para quem chega aqui pela primeira vez. Mas um olhar mais atento logo vê o movimento comercial diferenciado da Capital do Ovo, simbolizado pelas cinco agências bancárias para seus 20 mil habitantes e que movimentam um volume de recursos várias vezes superior a muitas cidades maiores da região.
Rico como o ovo, modesto como o ovo, bom como o ovo. Assim é Bastos.
Sorrindo, me despeço do jovem repórter, com carinho especial por aquela juventude tão diáfana, tão passadiça e tão forte. A gemada da qual se orgulha de saber fazer, vai lhe deixar mais “forte” e mais nutrido, certamente. Ovos são assim mesmo, poderosos e simples.
Eu, igualmente coberta de poeira e cansaço, estou feliz. Naquele momento de prazer pelo trabalho, posso dispensar a gemada, nem dela preciso para ser mais forte. A vida me faz forte a cada novo minuto que venço a tristeza e o peso inevitável do viver com consciência.
No jardim de casa, meu Manacá da Serra, que comprei em botão há 8 meses, sem nunca se arriscar a brotar, resolveu sorrir para o mundo assim que o frio intenso nos assaltou em junho. Suas flores se abrem à noite, brancas como a neve. Mas, ao logo do dia, logo se envaidecem e ficam magentas feito o entusiasmo que me corre nas veias nesses meus 50 anos recém-completados.
Muitas vezes costumo ser assim: branca e diáfana, com a vida por acordar em mim. Mas o que gosto mesmo é ser magenta. Apaixonada, vibrante, entusiasmada.
Como uma mineira que conheço que aos 96 anos, pisciana também, parece mais viva que eu, em meus poucos 50 anos. Mariazinha é como um manacá que já se abre todo magenta, sem escala pelo rosa.
Em minha vida quero ir aprendendo a ser assim tão viva. Tenho tempo. Mas, por via das dúvidas, é bom aprender a fazer gemadas. E plantar mais manacás nessa terra sem serras que escolhi para viver.



Um comentário:

  1. Esse manacá, danadinho, está querendo fazer brotar novas flores em pleno agosto seco e sempre surpreendente.
    Bela crônica, Lelê!

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